Coisas de Valentina 2

Ontem ela teve a visita de um professor diferente na escola. Ele foi falar sobre ursos. Como você mora no meio do mato, volta e meia escuta de um urso que achou uma lixeira aberta e fez a festa no quintal de alguém. Por isso, importantíssimo saber, desde criança, sobre segurança “ursal” (como é que se traduz “bear safety”?). Dentre as coisas mais importantes estão 1) lacrar seu lixo antes de deixar na porta por caminhão pegar e 2) nunca correr quando topar com um urso.

Então, eles tiveram a aula com o instrutor especialista em vida selvagem. À tarde, na hora de buscar, a primeira pergunta que você faz:

-Valentina, o que você faz quando vê um urso?

-You run as fast as you can! (você corre o mais rápido que puder!)

-Tem certeza? Não é pra ficar quietinho?

-Não! You call papai and run! (você chama seu pai e corre!)

 

Hum… acho que alguém trocou as bolas. Devo reclamar na escola? :grin:

Que língua ela fala?

Essa é uma pergunta que sempre me fazem. A Valentina fala inglês ou português? Fala farsi? Acho que posso dizer que ela fala “valentinês”: é uma mistura de inglês e português que, a primeira vista, soa uma babel de sons.

A primeira língua dela é inglês, sem sombra de dúvida. As frases vêm primeiro em inglês, misturada com palavras em português. Na escola e com o pai, só inglês. Comigo, mistura tudo.
Outro dia, logo após o retorno da minha mãe pro Brasil, ela perguntou pro pai: “daddy, where’s grandma?” e, na mesma hora, virou pra mim “mamãe, where’s vovó?”. A construção é inglês, mesmo que as palavras sejam na língua da mamãe: “I want pôr roupa e go lá fora”.

É um trabalho de formiguinha mesmo… lemos muito em português, coloco músicas brasileiras, vou conversando sempre em português, mas quando ela passa quase 11 horas do dia dela ouvindo inglês, brincando em inglês, interagindo em inglês, é complicado imaginar ou mesmo supor que o português fosse a primeira língua. Outro dia, ela brigou comigo quando perguntou o que era tal parte do corpo. Eu disse que era cotovelo e ela retrucou com um “não, mami, it’s elbow!”. Expliquei que era elbow em inglês e cotovelo em português. Se ela entendeu? Não sei.
Estou começando a mostrar que existem duas línguas: inglês, que ela conversa com o mundo, inclusive o pai, e português, que é a língua da mamãe.

Não sei se é cedo pra isso, afinal, ela só tem 3 anos, mas confesso que a “predileção”, ainda que naturalmente esperada, pela outra língua chateia um pouquinho. É o lado afetivo do idioma, como a Flávia bem descreveu. É a minha cultura, minha vida, como eu me conheço.

Passo boa parte do dia falando em português, escrevendo em português que, quando vejo minha filha brigar que não é cotovelo, é elbow, me acende a luzinha vermelha. Já pensou ir pro Brasil e ela não entender os tios, os primos, a avó?

Já com farsi, vejo que ela entende alguma coisa e fala uma ou outra palavra. Marido não faz tanta questão que ela seja fluente quanto eu, então fala com ela em farsi mas não sempre. Na maioria das vezes, é em inglês mesmo. Ele mesmo decidiu que é “uma língua muito complicada”.

Estou aproveitando que ela está na fase dos “porquês” e de querer saber o que é tudo. Não basta dizer que o objeto tal é uma cadeira, tenho que explicar que aquele negocinho ali embaixo é o parafuso que segura a rodinha pra fazer a cadeira deslizar.

Me pego pensando nas palavras, em como explicar de modo que ela entenda e, ao mesmo tempo, dando a oportunidade de introduzir novas palavras no vocabulário dela. Às vezes, vejo que ela não entendeu tal coisa e preciso repetir tudo em inglês. E depois repito mais uma vez em português. Se ajuda eu não sei, mas acabou que virou um hábito de sempre que falo algo em inglês com ela, repito a mesmíssima coisa em português.

Acho que só o tempo vai dizer se estou acertando nisso ou não. Espero que sim.

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